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ABASTECIMENTO DE ÁGUA INTEGRADO

Um projeto de abastecimento de água, e um programa de construção de cisternas, são sempre  bons pontos de partida para discutir o contexto geral da vida da população. No entanto, um trabalho que vise unicamente o abastecimento de água da população e se esquive dos outros problemas não solucionados, como a produção, comercialização, acesso à terra etc., terá um alcance muito limitado.
O início do trabalho deve ser precedido por um levantamento com a participação popular, para conhecer os recursos hídricos existentes e a quantidade de pessoas e animais com uma oferta de água deficiente. Este procedimento levanta dados aproximados importantes, ajuda à população se inteirar sobre a situação do abastecimento de uma região e leva, em condições ideais, a um engajamento ativo no planejamento e execução das medidas.

A prática também tem mostrada que um programa de formação, da população beneficiada, sobre o clima do Nordeste, noções básicas sobre meteorologia, como se origina a chuva, as causas das secas, sobre quantidade de água necessária, sobre o manejo de cisternas, calhas etc. Administrado através de cursos, é decisivo para um desenrolar eficiente do projeto e a futura incorporação da captação de água da chuva, na cultura e saber popular.
Mas não devemos considerar que uma tecnologia como a da cisterna apresentada neste livro, seja a solução milagrosa para "acabar com o problema da água". As causas da falta de água tem muitas faces, além da inexistência do hábito da captação no acervo cultural do povo, existe a ação dos políticos que tiram vantagens eleitorais e outras do abastecimento insuficiente no interior. As elites econômicas, 
por desconhecimento do verdadeiro potencial de Sem-árido, não encontram atrativos bastantes para investir na população rural nordestina: tem a face da insegurança na terra e tenha talvez até a face de uma religiosidade popular que enxergue na falta de água uma atuação divina a qual o homem não pode se opor.

Além disso a questão da água tem que ser visto em termos mais amplos, de uma forma integrada. Na realidade atual, com suas diversas limitações, somente a conjugação de diversas origens de abastecimento, oferecerá a segurança der ter água o ano todo e todos os anos.


O planejamento deve considerar os tres níveis de abastecimento de água:

O abastecimento de água para a família, i.e. da água para beber, cozinhar, lavar louça, dar banho em crianças pequenas, deve acontecer de forma individual. Assim como cada casa possui seu próprio telhado, dever ter também seu próprio sistema de abastecimento de água. A cisterna é uma das propostas mais indicadas, pois disponibiliza a água no lugar do uso, evitando o seu carregamento por longas distâncias.
Como qualquer forma de abastecimento de água, a cisterna necessita de certos cuidados, para mante-lá íntegra e com água de boa qualidade, cuidados este que são facilmente executados no âmbito familiar.

Um programa de construção de cisternas deve considerar que todas as casas de  uma comunidade possam receber seu reservatório dentro de um curto espaço de tempo. Se somente em uma ou algumas poucas casas uma cisterna for construída, os outros membros do povoado irão buscar água lá, durante o próximo período seco e logo a cisterna estará vazia. Além do risco de rachaduras que isso acarretaria, os moradores ficariam com a impressão que a cisterna também não representa uma saída para o problema da água, pois "depois de dois meses não tinha mais nenhuma gota d'agua".

Quanto à água para a comunidade, trata-se em geral de uma aguada coletiva, de um caxio grande, - acumulação de água de escorrimento superficial -, de onde é retirada a água para o uso geral. Esta água normalmente apresenta muitos materiais em suspensão.
Todos os anos esta fonte de água necessita de manutenção, ela tem que ser ampliada, aprofundada, limpa e as cercas tem que ser consertadas.
Em regiões, onde a acumulação superficial é inviável, pela forte infiltração no terreno, o papel da fonte da água comunitário, pode ser assumido por um poço ou cacimba, rasos, cavados manualmente. Em anos de estiagens prolongadas estes recursos podem secar temporariamente.

Água para o abastecimento emergencial. Tratam-se de recursos hídricos mais difíceis de se conseguir (e manter!) p.ex. pelo alto valor de investimento ou pelas peculiaridades geológicas, como poços profundos, barragens etc., localizados estrategicamente entre as diversas casas de um povoado ou entre diversas comunidades.

Estamos ainda longe de poder equipar cada propriedade nordestina com um sistema de abastecimento seguro, que disponibilize água mesmo nos anos de precipitação mais irregular. Tecnicamente não há nenhum obstáculo, para chegar a este ponto. A proposta acima, de abastecimento integrado, se tem mostrado resistente até em estiagens prologadas.

Quanto mais analisada a situação do abastecimento de água e mais visão se tenha sobre as necessidades reais, mais aperfeiçoados serão os recursos da água da família e da comunidade e menos serão solicitados os recursos hídricos emergenciais.



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