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Editorial

Sonhando com a Copa

Não gosto de futebol. Por não me envolver com o esporte nunca procurei entender suas regras e desde criança nunca comemorei quando as aulas eram suspensas durante a Copa em dia de jogo da seleção brasileira. No entanto, respeito quem torce, grita, sofre, deixa de fazer outras coisas por um jogo, jogando ou assistindo, algo que é feito por muita gente no nosso país, principalmente os homens.

Apesar de não curtir, este ano, especialmente, estou ansiosa pela Copa do Mundo. Não é de hoje que acompanho notícias relacionadas aos “atingidos pela Copa”. Sim, para quem não sabia, nos últimos anos tem sido criados diversos Comitês Populares dos Atingidos pela Copa 2014. São organizações e pessoas que questionam os altos investimentos e quem sai ganhando com este megaevento, prioridade para os governos que tem alavancado processos em nome da preparação das cidades-sedes. No meio das ações estão desde a reforma ou construção de estádios até despejos e remoções forçadas em favelas e comunidades; precarização do trabalho, com constatações de morte de trabalhadores devido a irresponsabilidades das empreiteiras; privatização de serviços para atender muito mais o interesse de empresas e corporações do que a população, etc. Como consequência, já se vê e se vislumbra problemas sociais como o aumento da exploração sexual, tráfico de pessoas, maiores dificuldades de mobilidade urbana, aumentos dos preços dos produtos e serviços, epidemias, sem falar na legitimação das desigualdades sociais até mesmo no acesso aos estádios.

Mesmo assim estou sonhando com a Copa. Sonhando que todo aquele momento de manifestações de junho de 2013 possa ser revivido, com protestos sérios, reivindicando os direitos dos milhões de brasileiros e brasileiras à saúde e educação de qualidade, ao funcionamento responsável dos órgãos públicos. Sonhando que a juventude impedida de ir aos estádios devido ao alto custo dos ingressos, se levante por meio da música, do teatro, da educomunicação, de outros esportes e diga ao mundo que merecemos mais respeito, mais oportunidades, mais autonomia e valorização. Sonhando com a paz nas ruas e nas arquibancadas, mas com significativas manifestações nos estádios a cada abertura de um jogo nas cidades-sedes, daquelas que nenhum meio de comunicação comprado pela FIFA não tenha opção de não mostrar. E se a Tv não mostrar, que a comunicação viral tão eficiente das redes sociais possa fazer o mundo todo saber, como tem sido ultimamente com questões sérias e polêmicas ou com futilidades compartilhadas publicamente. E que os protestos se desdobrem, ganhando a opinião popular.

Enquanto salitreira, sentiria muito orgulho se meu conterrâneo Daniel Alves, com quem convivi na infância na escola da Tapera, aproveitasse esta oportunidade que a vida tá te dando para falar de racismo e preconceitos de uma forma politizada, trazendo à tona a raíz do problema e tudo que sustenta o mesmo em pleno século XXI, seja na Europa, nas favelas do Brasil, no Salitre, nas filas, nas universidades, nas empresas, etc. E isso, Daniel, vai além da “campanha” que surgiu na mídia a partir de uma atitude involuntária sua num estádio estrangeiro, com o sangue quente no domingo à noite. Referências no futebol brasileiro, em sua maioria negros e de origem pobres, bem que poderiam se interessar em bancar esse debate, repito, que vai além de postar uma foto comendo bananas nas redes sociais.

Sigo sonhando. Ainda falta pouco mais de um mês. Um mês em que seremos tentados/as a todo momento a comprar produtos verde-amarelos, a ver o aumento da publicidade de empresas de cerveja, refrigerante, turismo, cartões de crédito, nos convidando a consumir, consumir, consumir, muitas destas usando a mulher como um objeto pra incrementar a propaganda. Veremos também a defesa de um patriotismo exagerado, um amor à pátria que se resume a enfeitar as ruas, parar tudo para assistir aos jogos, gastar tudo nos bolões e comemorações. Veremos também a mídia brasileira mostrando claramente de que lado está, a serviço de quem colocam as concessões públicas.

E não posso deixar de sonhar. Por isso queria muito ver os bilionários investimentos na Copa 2014 sendo empregados com responsabilidade para garantir a qualidade de vida da população brasileira que ainda está abaixo da linha de pobreza. Queria ver campanhas de sensibilização do governo com ações concretas voltadas para a preservação da Caatinga e outros Biomas, a revitalização popular do São Francisco, o combate ao extermínio da juventude negra, a eliminação da violência contra a mulher, a democratização dos Meios de Comunicação. Queria ver programas de geração de renda dando certo, fortalecendo a condição financeira das milhares de famílias que hoje sobrevivem de programas sociais, do assistencialismo.

Espero muito ser convencida do contrário. Ver que a Copa não esbarra em aspectos tão negativos à vida da maior parte da população. Quem sabe com isso eu até comece a gostar de futebol. Continuo sonhando...

 

Autor(a): Érica Daiane Costa - Jornalista

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