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Recaatingamento

Conheça aqui nossa experiência com Recaatingamento em comunidades agropastoris e extrativistas do sertão da Bahia:

www.recaatingamento.org

 

A CAATINGA é um bioma genuinamente brasileiro, rico em plantas e animais. Quando bem administrado, pode ser a base segura de vida, sem precisar temer as irregularidades climáticas. Mas está sendo devastado, desde os primórdios da colonização.

 

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Cerca viva feita de Quiabento

Com a preocupação de encontrar maneiras de recomposição florestal da Caatinga (“RECAATINGAMENTO”), a partir da realidade e experiências das comunidades tradicionais de Fundo de Pasto e inverter a degradação ambiental e combater a desertificação na zona semi-árida brasileira, a Associação Agropastoril dos Pequenos Criadores da Fazenda Barriguda, juntamente com organizações como o IRPAA, Horizont3000, realizou nos dias 27 e 28 de Julho de 2007 na comunidade de Angico, Canudos-BA, um seminário com as seguintes finalidades:

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Representantes das comunidades no Seminário

1.Promover o manejo sustentável da Caatinga com técnicas apropriadas à Convivência com o Semi-árido nas comunidades de Fundo de Pasto.

2.Elaborar estratégias sócio-ambientais para aumentar as essências vegetais da Caatinga com enfoque a implementar medidas agroecológicos de proteger as plântulas das espécies nativas.

3.Contribuir para a renovação da população de algumas espécies arbóreas típicas da Caatinga com perigo de extinção, a exemplo do Umbuzeiro, árvore emblemática e sagrada da Caatinga.

4.Promover a reprodução da base da produção do extrativismo vegetal e da exploração racional da Caatinga.

O evento contou ainda com o apoio do IPMC- Instituto Popular Memorial de Canudos, STR Canudos, e da Paróquia de Santo Antônio de Canudos.

 

Confira abaixo o relatório do evento:

 

 

 

Queremos a Caatinga de volta,
forte e diversificada,
queremos o recaatingamento!

 

  Relatório.

 

1. Aconteceu nos dias 27 e 28 de julho de 2007 o primeiro Seminário sobre Recaatingamento em áreas de Fundo de Pasto em Canudos/BA, com aproximadamente 45 participantes, moradores das Comunidades Fundo de Pasto do Alto Redondo, Angico, Barriguda, Rasinho, Cambaio, Caipan e Poço da Pedra e as entidades apoiadoras, IPMC- Instituto Popular Memorial de Canudos, STR Canudos, Paróquia de Santo Antônio de Canudos e Articulação de Fundo de Pasto, sob a moderação de Markus Breuss, Cooperante do Horizont3000.

  Há tempo a população está notando que o Caatinga mudou:

  1. - Não tem mais madeira, não tem mais angico, baraúna, aroeira, barriguda...
  2. - Quem tem dinheiro compra lenha de fora,
  3. - Aqui tinha uma roça de mandioca...hoje não dá mais!
  4. - A gente trabalha mais e ganha menos

 

2. A constatação é geral que a fertilidade da terra está diminuindo, que o solo vai embora e que as plantas desaparecem; a causa tem nome: erosão, degradação e desertificação. Isso não acontece só aqui, municípios bem próximos, Curaçá e Cabrobó são considerados núcleos de desertificação.

  A preocupação com a desertificação não é só local, o problema está colocado para todo o Nordeste brasileiro e é uma ameaça à vida humana do planeta. O aquecimento global e as mudanças climáticas ainda agravam a situação. A desertificação virou preocupação mundial. Foram instalados convenções e programas, seja no Brasil ou em outras partes do mundo, como a UNCCD – (Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação), o PAN – (Plano Nacional de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca), e o PAE Bahia – (Plano de Ação Estadual de Combate a Desertificação). Fala-se muito em combate à desertificação, está em toda boca. Há muitas recomendações, programas, planos, instituições e grupos de trabalho, em fim, muita papelada é produzida.

Mas, e os casos concretos? O que acontece na prática?

  3. O seminário foi realizado com a finalidade de encontrar meios de combate à desertificação a partir da realidade das comunidades tradicionais de Fundo de Pasto, a partir do conhecimento da rotina e da prática do dia-a-dia, de quem vive da e convive com a Caatinga. Precisam ser encontradas intervenções, sejam políticas, econômicas, sócio-culturais e ambientais, que ocasionam mudanças de hábito, no trabalho e na relação com o meio ambiente.

Quem pode fazer o recaatingamento é o homem e a mulher, dentro da sua realidade, com seu próprio jeito e seus meios. Dentro do processo para o recaatingamento é indispensável de conhecer, compreender, respeitar e envolver as comunidades diante ao seu modo de vida. Somente assim será possível iniciar um processo sustentável da volta da Caatinga e da Convivência com o Semi-Árido (CSA). O recaatingamento precisa acontecer de baixo pra cima, e não de cima para baixo, como o Combate a Desertificação está sendo realizado no mundo inteiro.

  4. Depois destas constatações iniciais, teve contribuições de três representantes de organizações locais:

- Lúcio Conceição (Presidente da Associação Agropastoril da Barriguda), que apresentou “A realidade de Barriguda/Angico, relação comunidade-Caatinga e os desafios sócio-ambientais”; explicou o conteúdo do atual projeto em curso juntamente com a Coordenadoria de Agro-Extrativismo (CEX/MMA), destacou  a regularização das a?eas de Fundos de Pastos, como passo principal para o manejo correto e a reconstituição da Caatinga e a importância da produção de feno com plantas de potencial forrageiro adaptadas à nossa região;

- Adelson (Representante da Comissão Estadual de Fundos de Pasto) falou sobre a “Função social e ambiental da Articulação Estadual de Fundos de Pasto"; expressou que a articulação surgiu à partir da necessidade das comunidades dos Fundos de Pastos reivindicarem ações mais concretas de políticas públicas para garantir a permanência das famílias na terra;

- Sandoval representando o Instituto Popular Memorial de Canudos (IPMC) apresentou: “Objetivos e atuação sócio-ambiental junto com as comunidades de Fundo de Pasto”. O IPMC surgir com intuito de manter viva a história do povo de Canudos na época de Antônio Conselheiro que defendia um modo de vida socialmente justa e sustentável.

  5. Estratégias sócio-ambientais para o Recaatingamento.

Várias fontes constatam que, antes da exploração pelos colonizadores, a Caatinga era composta de florestas adaptadas ao clima semi-árido e altamente diversificadas em suas formas de vida, com uma vegetação fechada de múltiplos estratos, herbácea, arbustiva, arbórea baixa e arbórea alta, além de uma cobertura morta. Evidentemente a aparência variava, devido às diferentes condições pluviais e pedológicas. Os solos eram protegidos contra a insolação intensa, ventos e chuvas fortes, contra a compactação e o ressecamento, com uma cobertura de folhas caídas e outros restos orgânicos. Nos córregos de água existiam matas ciliares. Hoje, uma classificação comum da Caatinga se sustenta na observação do grau de abertura da vegetação e destinge entre arbórea, arbustiva ou aberta.”

  Coletivamente foram levantadas as ações e processos que ameaçam a Caatinga:

  Ações e Processos que ameaçam a Caatinga

Diretamente:  

            Tirar madeira para lenha, estaca, carvão, ...

            Comércio exploratório, extrativismo predatório (casca de angico, batata do umbuzeiro,...)

           Queimadas

            Obras de infraestrutura, estradas, empreiteiras,...

            Falta de técnologias e procedimentos para alimentação dos animais nos meses sem chuva

            Não existia a consciência que a Natureza se pode acabar, falta de sensibilização

            Caça predatória (como esporte,...)

Indiretamente:           

            A não-solução da questão fundiária, invasão por terceiros nos Fundos de Pasto, área aberta diminuindo (por conta das cercas)

            Aumento da população, assentamento de pessoas de fora

            Muito bode, pouca terra (super-pastoreio)

            Políticas públicas não respeitando a Convivência com o Semi-Árido (INCRA, SEMARH, créditos agrícolas...)

            Falta de assistência técnica apropriada ao bioma Caatinga

   A partir das ameaças à Caatinga foram elaboradas quatro estratégias para o recaatingamento:

  Estratégias para o Recaatingamento

1.        

Formação política

- Lutar pela solução da questão fundiária,

- Participação e intervenção nas políticas públicas

2.        

Conscientização ambiental

- Educação contextualizada

- Capacitação para geração de renda

3.        

Mudanças no manejo de rebanho e do Fundo de Pasto

- Resgatar práticas tradicionais

- promover novas técnicas

4.        

Intervenções agroecológicos de Recaatingamento

- Medidas de proteção da vegetação

- Controle da erosão

  Dentro da primeira estratégia, ficou claro que, em primeiro lugar, devem ser evitados novos desmantamentos. Foi citado como exemplo negativo um projeto de assentamento no município de Canudos, sob as orientações do INCRA, que pretende desmatar uma grande área de Caatinga, hoje ainda relativamente preservada, por ser usada até agora tradicionalmente como Fundo de Pasto. Aparentemente para ser dividida em mini-parcelas de 15 ha, para a monocultivo de mamona e pinhão manso “A gente está gastando tempo pensando em Recaatingamento e no mesmo tempo estão acontecendo processos sérios de Descaatingamento, a invasão e destruição das áreas fundo de pasto”, um participante expressou a sua preocupação.

  Em relação à segunda estratégia Lurdinha (IRPAA/PROCUC) apresentou-se a “Experiência de geração de renda com produtos extrativistas da Caatinga” como o umbu e o maracujá do mato, através de cooperativas. Apresentou o conceito da Convivência com o Semi-árido e o desafio para uma educação contextualizada.

  Como contribuição para a terceira estratégia, Edimilson (IRPAA) falou sobre “Manejo do rebanho em Fundo de Pasto: riscos e oportunidades”. Destacou algumas práticas e estimulou a reflexão sobre suas conseqüências para a Caatinga, por exemplo, a queimada de macambira para a alimentação do gado (o gado, um dos principais devastadores da Caatinga) e a decorrente destruição da vegetação; a relação desequilibrada entre o número de animais e o tamanho da área de pasto e a oferta de alimento; o potencial de plantas forrageiras adaptadas para a estação seca; a venda de esterco para as regiões de agricultura irrigada (Juazeiro e Sergipe).

A exportação de esterco tem como conseqüência a perca de fertilidade das roças, plantios de forrageiras e das terras dos Fundos de Pasto. A exportação do esterco impede também que as sementes de plantas da Caatinga brotem no seu lugar de origem, pois os animais (caprinos/ovinos) contribuem para a disseminação de sementes da Caatinga (p.ex. do umbuzeiro). Quando o esterco é vendido para as áreas irrigadas, são levadas também as sementes contidas nele. A venda do esterco é muitas vezes uma questão de necessidade financeira e de facilidade: para "limpar" o chiqueiro. O que fazer para melhor aproveitar este produto? Outras rendas adicionais? Como dar mais possibilidade de germinação das sementes da Caatinga?Quais estratégias criarmos para adequar o rebanho ao tamanho da terra? Existe um sentimento muito forte de amizade, carinho e respeito entre os membros da família (pai, mãe, irmão/ãs, tias/os) amigos, compadrio etc., assim pessoas que às vezes nem moram na área, possuem animais a serem criados por parentes, o que fazer?

  6. Do trabalho em grupo, Quais e como são as técnicas tradicionais que podem contribuir para o Recaatingamento e que novas sugestões têm? saíram as seguintes sugestões: cerca vivas (cerca velado, com macambira, xique-xique, mandacaru, gravatá, etc, cerca de madeira e cerca de rama), uso do esterco na roça, no plantio de palma e mandacaru e Fundo de Pasto, plantio de mudas nativas (aroeira, umbuzeiro, angico, barriguda, umburana, baraúna, caraíba, quixabeira, juazeiro, faveleiro e outros), recuperação das margens dos rios e riachos com plantas e pedras, manter macambira viva, entre outras.

  7.       Práticas do Recaatingamento. Foram apresentadas e discutidas algumas propostas de intervenções agroecológicas

     Experiências Agroecológicas

 

Zona de atuação

 

Medidas agroecológicas

1. No cercado da casa/ da roça

Produção de forragens

Manejo racional do esterco

Cercas e estacas vivas

Viveiros caseiros/ rústicos, para diversas mudas

Sistemas agroflorestais, roças mistas, quintal estendido, pomar

2. Área aumentada do cercado da casa/ da roça

Cercas vivas espinhentas, velados

Plantio de forrageiras

Manejo racional do esterco, produção de forragem

Roças mistas com espécies arbóreas (Umbuzeiro, etc)

3. No Fundo de Pasto

Proteger as macambiras e espalhar esterco principalmente no período em que contém mais sementes

Plantar moitas de macambira com esterco/sementes/mudas no meio

Micro-Barragens nos córregos de erosão

 

8. O principal intuito da reflexão é, por um lado, encontrar métodos de proteção às plântulas das espécies da Caatinga e, para o outro, desenvolver medidas para reduzir a erosão e recuperar áreas erodidas. Nas zonas de atuação 1 e 2 se aproveita a já existente proteção física para novas plântulas. A prática de plantar estacas vivas (Umburana de cambão, etc) prolonga a vida útil das cercas existentes e evita o corte de novas estacas da Caatinga. Nas novas áreas usam-se cercas vivas, uma maneira mais barata e muito douradora, por exemplo com quiabento, conhecido por diferentes nomes, segundo cada região: Espinho Dantas, Espinho de Santo Antônio, Santoantonheiro, Cactus Rosa, etc. cujo nome científico é Preskia bahiensis Gurke.

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Macambira - Planta nativa da caatinga

Na discussão sobre o manejo racional do esterco, foi destacado o seu valor para produção de forragens. Em períodos, quando o esterco contém sementes de plantas da Caatinga, por exemplo Umbuzeiro, pode-se espalhar o esterco nas próprias áreas, enquanto, quando o esterco está cheio de sementes de plantas invasoras, por exemplo da algarobeira, pode-se eventualmente pensar em vender o esterco.

Nos fundos de pasto, além de proteger as macambiras, como medida de controlar a erosão, foi mostrado na prática a utilização de micro-barragens. A macambira é um forte aliado para a recuperar a vegetação, um remédio natural para nossa Caatinga, que está doente. Queimar a macambira, é, como se fosse jogar fora um remédio que uma pessoa doente está precisando.

 

No trabalho de campo foram realizadas as seguintes medidas ecológicas:

1.       Cercas vivas de quiabento

a.)     em área protegida dos animais (na cerca dos quintais dos participantes) com uma muda de umbuzeiro ao centro.

b.)     em área exposta à ação dos animais (na cerca da roça), uma cerca viva em terra tipo massapê e outra em terreno arenoso

2.       Micro-barragens com sacos tipo "nylon" em córregos de erosão


3.       Produção de muda para o viveiro caseiro/ rústico, usando papel de jornal e uma lata de óleo de cozinha.

 




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