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Famílias agricultoras do Semiárido cuidam da saúde com olhar para condições sociais e culturais dos povos

Famílias agricultoras do Semiárido cuidam da saúde com olhar para condições sociais e culturais dos povos

O direito à saúde não é meramente combater doenças e ter acesso aos equipamentos dispostos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Povos de comunidades do Semiárido garantem que saúde é também sinônimo de preservação da sua identidade, das sabedorias guardadas no campo e do olhar para as tradições e da fé.

Existem cerca de 29,9 milhões de pessoas vivendo na área rural do Brasil. Apesar de representarem cerca de 15% da população do País, Os povos do campo lutam contra limitações de acesso aos serviços básicos de saúde, como a distância para chegar aos postos de atendimento, ausência de médicos especializados, exames, medicamentos, falta de saneamento e a presença de agrotóxicos. Mesmo com os desafios no acesso à medicina convencional, as famílias do campo buscam os serviços do Sistema Único de Saúde (SUS) e têm também como aliada a medicina tradicional. Em suas propriedades e quintais mantêm viva a tradição de cultivar plantas medicinais. De geração em geração são as mulheres camponesas as guardiãs do poder de curar pela fé e pelo conhecimento da diversidade de plantas presentes no Semiárido.

Neste ano, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) divulgou Dossiê intitulado “Um Alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde”, onde afirma que a saúde depende das condições sociais, culturais, econômicas e ambientais de cada um/a. Ainda que cada povo tenha a sua percepção do que é saúde de acordo com a sua cultura, há o consenso de que ela está relacionada a democracia, educação, trabalho e liberdade, moradias saudáveis, ar de qualidade, abastecimento de água, coleta e disposição de esgoto, bem como coleta e tratamento de lixo.

O Dossiê aponta que apesar da melhoria do acesso à assistência em saúde no período entre 2003 e 2008, 20% da população rural informaram que nunca havia sido atendidos por dentista e 30% das crianças menores de 4 anos não haviam realizado consulta médica em 2008. Enquanto entre os adultos que ao menos tinham realizado uma consulta médica no último ano era de 51,60% em 2003, e passou para 59,50% no ano de 2008.

Quanto ao saneamento básico, no ano de 2000, 12,15% da população rural tinham acesso à coleta de lixo, 11,78% a esgotamento sanitário e 17,8% a abastecimento de água. Enquanto a população urbana tinha para os mesmos indicadores, 91,13%, 70% e 89,12%. Dessa forma, a melhoria da saúde está diretamente relacionada à redução das desigualdades a partir da efetivação de políticas públicas.

Segundo a pesquisadora do GT de Saúde e Ambiente da Abrasco, Lia Giraldo da Silva Augusto, os dados acima representam um contexto de vida onde a população rural se vê vulnerável. “O acesso as políticas públicas de saúde deveria ser equacionado para atender aos problemas de saúde produzidos por esse contexto de vida. No entanto, vemos que o planejamento centralizado, descontextualizado e regido por parâmetros produtivistas não atende esse realidade, comprometendo assim a efetividade de qualquer política setorizada”, avalia.


O assessor técnico da Cáritas Diocesana de Crato (CE), Manoel LeanMulheres rezadeiras cuidam da família e dão assistência a vizinhança na comunidade. dro do Nascimento, que atua no projeto Meizinheiras do Pé de Serra na região do cariri cearense, destaca o quanto a discussão sobre a saúde não deve estar restrita somente ao combate às doenças. “A discussão sobre saúde não é meramente como um simples combate à doença. O povo das comunidades onde atuamos disse que são felizes, mas que ainda falta saneamento básico. Então vemos a importância de a infraestrutura e de que as políticas públicas cheguem às comunidades. Não é simplesmente tomar remédio e combater doenças. Isso amplia a nossa visão sobre o que é saúde”.

Conferências de Saúde - Esse ano, o governo federal realiza a 15ª Conferência Nacional de Saúde que terá como tema: “Saúde Pública de Qualidade para Cuidar Bem das Pessoas: Direito do Povo Brasileiro”. É a oportunidade de as populações colocarem em pauta suas expectativas para avançar no âmbito da saúde. Entre os eixos temáticos programados para serem debatidos estão o direito à saúde, a garantia do acesso e atenção de qualidade e a participação social. As etapas municipais acontecerão até o dia 15 deste mês, enquanto o encontro nacional será de 23 a 26 de novembro.

Conquistas - Como conquistas já concretizadas no campo da saúde, o Ministério da Saúde através da Portaria nº 2.460/2005 instituiu o Grupo da Terra formado por órgãos governamentais, movimentos sociais e convidados. Esse grupo elaborou a Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo e da Floresta (PNSIPCF) e suas estratégias para implementação. A Política fundamenta-se na necessidade de incluir especificidades dos diversos povos do campo e da floresta.

Saúde é felicidade - Os desafios para acessar o posto de saúde do município de Solânea, na Paraíba, são uma realidade para a agricultora familiar Maria Isabel do Livramento Rocha Santos, de 60 anos (assista ao vídeo contando essa experiência clicando aqui ). Como integrante da direção do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Solânea, ela coloca na pauta das reuniões a importância dos cuidados com a saúde. Se adoecer de noite ela precisa pagar R$ 35,00 por um carro que usa como meio de transporte para ir até a área urbana. Ela conta que em muitas consultas o médico pedia para que a agricultora voltasse após dois meses para uma nova avaliação. “Eu tinha problema de enxaqueca e o médico dizia que eu voltasse daqui a dois meses. Como a pessoa vai doente e ele diz pra voltar daqui a dois meses? Eu tomei muito chá de uma planta chamada hortelã da folha miúda e melhorei”.

Na propriedade de dois hectares na comunidade de Pedra Grande ela cultiva mais de 100 espécies de plantas medicinais. Com a água da chuva estocada em cisterna de 16 mil litros do Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) e com a cisterna-calçadão do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), da ASA, consegue guardar água suficiente para manter viva a plantação. “É minha farmácia viva, tenho planta pra dores, inflamação, febre. Para todo tipo de doença eu tenho planta. Já completei 60 anos e quase não vou ao médico”. Na minha comunidade muitas pessoas me procuram porque as plantas, com a graça de Deus, elas curam”. Maria Isabel diz que aprendeu com o pai e a mãe a fazer uso das plantas para curar doenças. O ofício foi se aprimorando quando vieram a participação em reuniões, cursos e formações realizados com assessoria técnica de organizações como a AS-PTA, da ASA Paraíba.

Poejo, bico de papagaio (para tratar dor de cabeça e febre), mirra (dores e gastrite), transagem (dor e inflamação na garganta), Saião, corama e lágrima de nossa senhora (para tratar infecção urinária), Capim santo, cavalinha (para próstata), jarrinha (evita o câncer) são algumas das ervas com que ela prepara as garrafadas. Para a agricultora a cura vem do arredor de casa, do preparo de garrafadas que curam qualquer tipo de inflamação. O saber é compartilhado com a vizinhança. “Ensinei ao meu vizinho comer uma colher de semente de mamão para melhorar dores na barriga. Ele tomava remédio de farmácia e não melhorava. Tinha muita vontade de estudar, casei com 27 anos e fui trabalhar no pesado. Mas hoje estou numa escola de formação, com as plantas aprendi muito. Sou muito feliz como agricultora”, conta.

Saberes tradicionais preservados por gerações


"Ô Dona, senhora rezadeira, ô dona, senhora curandeira. Sabe o segredo das plantas que faz saudável essa gente. Com banho de ervas santas limpando o corpo e a mente”. Os versos da canção no ritmo do coco falam da história de mulheres do campo que aprenderam com as mães e as avós a tradição de cultivar plantas medicinais e usá-las para cuidar da saúde do corpo e da mente.

A experiência de vida das Meizinheiras do Pé de Serra, na região do Cariri cearense é acompanhada e teve registro em sistematizações através de um projeto da organização Cáritas Diocesana do Crato (Ceará) com apoio da CNBB, através do Fundo de Solidariedade. O projeto nasceu a partir de um olhar para uma ação do grupo de jovens Urucongo de Artes, que percebeu o quanto os saberes tradicionais era algo comum entre as mulheres de comunidades de Chico Gomes, Batateiras e Genipapo, no Crato, e como esse conhecimento estava se perdendo no tempo. A partir daí foi pensada uma forma de organizar as mulheres nas comunidades através de encontros e rodas de conversa, e como os jovens também poderiam participar e ter acesso a esse conhecimento.

No ano de 2012, a discussão surgiu a partir do tema saúde da comunidade, da escuta de como as mulheres se relacionavam na troca do conhecimento sobre as plantas, do acesso aos serviços de saúde, uma vez que não há postos de atendimento do SUS próximos. “O projeto trouxe para as mulheres da comunidade a visão de que a prática delas está conectada com a Política Nacional de Educação Popular e Saúde, da existência de uma legislação nacional que assegura essa prática”, explica a educadora social e agente da Cáritas Diocesana de Crato (CE), Verônica Carvalho. Ela comemora o avanço na política de saúde no Ceará, estado em que já existe em Postos de Saúde a presença de benzedeiras, parteiras e meizinheiras no atendimento.

A partir de conhecimentos teóricos aliados ao saber popular, as mulheres passaram a produzir lambedores, essências, pomadas, shampoos e a comercializar em feiras e outros espaços na região do Cariri. No mês de junho expõem na Feira Anual de Agricultura Familiar do Crato. E nos dias 31 de agosto, 2,3 e 4 de setembro participarão da Feira de Economia Solidária com exposição de produtos e roda de conversa. “A ação foi importante pela própria organização das mulheres. Fizemos um recorte também da questão de gênero, e vimos que são muito mais mulheres participando. A participação dos homens é pontual”, explica assessor técnico da Cáritas Diocesana de Crato (CE Manoel Nascimento.

Entre as meizinheiras atuantes no projeto está Dona Maria da Penha do Nascimento, conhecida como Dona Peinha, que mora no sítio Chico Gomes. Aposentada, aos 63 anos, mãe de oito filhos, ela conta que para ter acesso ao Posto de Saúde precisa ir até o centro da cidade, já que próximo à área rural não há médicos e nem atendimento. “Agora é assim. Se a gente não for doente, muito doente mesmo, no posto de saúde a gente não é atendido”. No passado conta que vivia internada, fez operação de vesícula, e já teve muita pressão alta. Depois que começou a participar do projeto Meizinheiras do Pé da Serra a disposição veio a tornou uma pessoa mais ativa. “Eu aprendi mais e dei mais valor as plantas”, revela. Hoje Dona Peinha cultiva malva do reino, hortelã, eucalipto, alfavaca, colônia e laranja. “Se você não tem fé e não faz uma coisa com amor não cura. Bebo um dia só o chá de colônia e normaliza a pressão.

Texto: Ylka Oliveira - Asacom

Foto: Cáritas Diocesana de Crato e MTS


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