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07.04.2010
Para além do chão rachado, a vida - Por Patrícia Benvenuti
Encontro Nacional da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA) comemora os dez anos da rede e defende um novo desenvolvimento para a região.
Brasil de Fato
Patricia Benvenuti
31/03/2010
Delzuita Ferreira Alves lembra bem a forte seca que, há duas décadas, atingiu a comunidade de Martinha, no município de Remanso, na Bahia. Mais do que a estiagem, a senhora de 64 anos recorda da própria tristeza ao ver sua filha pedindo um pouco d'água que, ali, não havia. “Na minha casa, não tinha água para cozinhar nem para beber. Nunca vou esquecer da angústia que passei”.
Esses tempos difíceis, porém, tornaram-se apenas lembranças. A falta d'água não assola mais sua comunidade que, com ajuda da Articulação no Semi-Árido (ASA), aprendeu a construir cisternas para captar a água da chuva.
“Será que não chovia?", questiona Dona Delzuita, que já dá a resposta do que mudou no semi-árido brasileiro nos últimos anos. "Chovia sim, mas não tinha a organização que temos hoje”.
Para celebrar a vitória da comunidade de Martinha e de tantas outras, 600 trabalhadores dos nove estados do Nordeste e de Minas Gerais se reuniram em Juazeiro (BA), entre 22 e 26 de março, no VII Encontro Nacional da Articulação no Semi-Árido Brasileiro (EnconASA). O evento marcou os dez anos da ASA, rede que conta com mais de mil entidades que apostam na chamada convivência com a região.
Outra lógica
O coordenador institucional da ONG Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), Ademilson Santos, o Tiziu, explica que a proposta fundamental da ASA se baseia no rompimento com a lógica de combate à seca. “Essa vê a região como uma região de miséria, que só tem dificuldades, e, para tentar minimizar algumas questões, são traçadas políticas assistencialistas, compensatórias, que não resolvem o problema”, afirma.
Tiziu ressalta o custo gerado por essas políticas, como a distribuição de água. Segundo ele, a média de gastos com cada carro-pipa fica em torno de R$ 6 mil por mês. Em localidades mais distantes, pode chegar a R$ 10 mil. Para Tiziu, a continuidade desse tipo de prática encontra respaldo nos grupos que não querem perder seu domínio na região. “A ideia de tratar o semi-árido dessa forma não é por acaso. Politicamente, é intencional, no sentido de manter aquela relação de cooptação, de clientelismo, para que as pessoas tenham que depender diretamente dos políticos, dos cabos eleitorais e dos coronéis”, avalia.
Convivência
Em contraposição à lógica assistencialista, a ASA propõe outro olhar sobre as condições naturais locais, com a quebra do estereótipo de uma terra sem vida. “A lógica da convivência com o semi-árido vê a região de outra forma, não com chão rachado, com cabeças de vaca mortas, como aparece na mídia e nos livros didáticos de uma ponta a outra no país. Não, vê o semi-árido com gente, com vida. É conseguir entender essa região, inclusive as dificuldades e, a partir disso, trabalhar em cima das potencialidades, que são inúmeras”, diz.
Uma dessas potencialidades está justamente na chuva, que, apesar de irregular, é abundante, podendo ser armazenada em cisternas, de modo a satisfazer as necessidades das famílias em épocas de estiagem. Com o Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC), em parceria com o governo federal, a ASA já construiu cerca de 288 mil cisternas, beneficiando 1,2 milhão de pessoas.
As organizações que compõem a Articulação apostam ainda em iniciativas como produção agroecológica, educação contextualizada, economia solidária e organização de mulheres. “A metodologia da ASA parte da realidade daquilo que a população está fazendo, dos elementos de resistência e de construção no semi-árido”, afirma o coordenador estadual da ASA na Bahia, Naidison Baptista.
Caminho
Foi o caso do agricultor Edésio dos Santos Antunes, de 44 anos, que mora na comunidade de Lagoa Redonda, no município de Casa Nova (BA). Antes da construção das cisternas, a família de Seu Edésio dependia da distribuição de água dos carros-pipa. “A gente pegava água e andava três quilômetros, colocava nas costas de um jegue, num barril. Assim que eu fiz um barraco lá, pegava água de noite”, relembra.
Com a ajuda da ASA, ele aprendeu a armazenar água não somente para consumo humano, mas também para utilizá-la em seus cultivos. Com as técnicas, a família pôde aumentar a quantidade de produtos em sua horta e diversificar a alimentação.
“Eu estou dando o maior valor. Não estou perdendo reunião, em todo canto estou buscando experiência”, afirma o agricultor, que tem ainda outros planos. “Estou incentivando meus colegas e vizinhos para ver se seguem o mesmo caminho e para a gente fazer uma associação”, adianta.
Reivindicar mais
Para o integrante da Comissão Pastoral da Terra (CPT) Roberto Malvezzi, o Gogó, pequenas tecnologias como as cisternas, o manejo correto da caatinga e a escolha de culturas e animais adequados à região foram capazes de trazer impactos significativos à população. “De uns 15 anos para cá, a gente não ouve mais falar em saques, em grandes migrações, em grandes fomes, nas chamadas frentes de emergência. E isso é mérito da ASA”, salienta.
O avanço dos resultados contribui ainda, de acordo com Gogó, para evidenciar os problemas que persistem no semi-árido, como a concentração fundiária, e fazer com que as famílias incorporem mais reivindicações. “As pessoas percebem que hoje é necessário ter a terra também. Se você não tem a terra, não tem nem onde colocar a água”, resume.
A mesma opinião tem Naidison Baptista, que ressalta a importância da reforma agrária na região. “Há estudos que indicam que uma propriedade, para ser rentável no semi-árido, precisa de 200 hectares. O que acontece é que as famílias têm dois ou três hectares. Então, elas são fadadas à fome e à perspectiva de não poderem se desenvolver. O semi-árido não vai ter respostas efetivas enquanto nós não tivermos uma reforma agrária adequada”, assegura.
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