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“Tem que se manter sempre firme aqui na nossa terra e lutar por ela”, diz agricultora

“Tem que se manter sempre firme aqui na nossa terra e lutar por ela”, diz agricultora

Ver seus irmãos e irmãs mais novos/as irem à escola enquanto ela precisava ajudar o pai a carregar água e cuidar dos animais naqueles anos de seca na década de 1980 era uma tristeza para a menina Maria Neves dos Santos, que hoje está com 49 anos. Nascida e criada na comunidade de Caiçara, no distrito de Abóbora, em Juazeiro, no sertão da Bahia, Dona Maria viveu uma infância parecida com de tantas outras mulheres que viviam no campo algumas décadas atrás no Semiárido brasileiro.

Com apenas 14 anos, Maria transformou a tristeza de não poder estudar em um sonho: queria casar, ter filhos e ver eles indo para escola, aprendendo a ler e escrever. Ela então decidiu apressar a realização de seu mais novo sonho e foi a uma festa numa comunidade vizinha a fim de encontrar um pretendente, mesmo sabendo que ao se casar não ia fugir da labuta com relação à seca. No forró, conheceu Dionízio Manoel dos Santos, que hoje tem 56 anos. Passado alguns meses, a união estava oficializada e no mesmo ano já nascia o primeiro filho.

A família cresceu ligeiro, um filho ou filha nascia a cada ano, rendendo um total de sete, mas apenas seis vivos, três mulheres e três homens. De todos os partos, só a filha mais nova nasceu no hospital, os demais foram todos em casa. Apesar da pouca idade, Dona Maria seguia firme ao lado do esposo enfrentando os desafios da vida no sertão, seja nos períodos de estiagem ou de enchentes, já que a propriedade da família fica a poucos metros de um riacho temporário e em alguns períodos de chuvas fortes sofriam com isso .

Mas foram os efeitos da seca que levaram S. Dionízio a deixar a propriedade em 1994 e tentar um trabalho fixo na cidade em uma empresa produtora de cana de açúcar. No ano seguinte ele leva toda a família, colocam as crianças em creches e Dona Maria consegue trabalho como doméstica. Porém, um acidente de trabalho sofrido por S. Dionízio fez a família retornar à Caiçara. Sem assistência alguma da empresa, o agricultor passou por cirurgias e a família voltou para a propriedade.

Ao retornarem, algumas coisas estavam começando a mudar. Antes da ida para a cidade, no período da seca, a água era encontrada com muito sacrifício em cacimbas e barreiros. Agora a comunidade já estava com acesso a água de uma adutora, embora ainda tendo que buscar a uma distância de 6 km de casa. Outro ponto positivo foi a chegada do transporte escolar que levava as crianças para estudar em outro povoado, realizando assim o sonho de Dona Maria, que não se cansa de afirmar a importância de aprender a ler: “A pior coisa do mundo é a pessoa ser analfabeta, meus filhos me perguntavam as coisas e eu não sabia ensinar”. Mas essa história mudou quando, em 2005, os filhos mais velhos matricularam a mãe e o pai numa turma de Educação de Jovens e Adultos. Com muita perseverança, D. Maria e S. Dionízio apreenderam a ler e escrever e concluíram a 8ª série.

“É preciso conviver com a natureza”

Apesar de terem aprendido muitas coisas na escola, foi a vida que ensinou ao casal lições importantes. Depois de ir para cidade e retornar para sua comunidade, D. Maria hoje afirma: “o certo é você conviver na comunidade. Do bode, da ovelha, você compra o material escolar, mantém a renda dentro da casa (...) é uma galinha que você tem, vende os ovos...”. A família cria caprinos, ovinos, aves, suínos e possui umas cinco cabeças de gado, mas que já pensam em vender, pois hoje reconhecem que criar animais de grande porte no Semiárido “não é negócio”, avalia D. Maria.

Uma certeza que há muitos anos o agricultor e a agricultora carregam é a de que é necessário preservar a natureza, cuidar da Caatinga e de todos os bens naturais. Se não existir essa preocupação “do meio pro fim acaba, aí acaba a natureza toda e depois a gente fica na pior que nem tá agora sem chover, tá agora essa seca aí talvez seja por causa dos desmatos, queimaram um bando, queimaram até pé de árvore grande, muita macambira, umbuzeiro, aroeira, até angico...”, acredita S. Dionízio.

Esse conhecimento S. Dionízio traz com ele desde a juventude e nunca deixou de lado, sempre buscando passar para os filhos e filhas. D. Maria também tem a mesma compreensão e acredita que “a natureza sabe se vingar”, pois já tiveram provas disso certa vez que desmataram uma área atrás da casa para plantar e quando choveu a água veio com muita força porque já não tinha mais a Caatinga para segurar.

D. Maria busca valorizar tudo que vem da natureza. Ela explica que é preciso praticar o reuso, o reaproveitamento e dá exemplos disso ao contar que usa o esterco dos animais como adubo para as plantas e a água que lava roupa irriga as plantas, como a laranjeira que tem na frente da casa e que mesmo na seca está oferecendo doces laranjas à família e visitantes. “É importante cuidar do meio ambiente, manter o meio ambiente preservado, porque por mais escassez de chuva que tenha, mas a gente sabe conviver com a natureza, tem que saber labutar com ela e se manter sempre firme aqui na nossa terra e lutar por ela”.

Hoje a água da adutora já chega até as residências de Caiçara duas vezes por semana, fruto da união da comunidade: “teve que ter muita organização, muita luta pra essa água chegar até aqui”, lembra D. Maria, que é membro da Associação e já ocupou cargo de segunda tesoureira.

Acesso à Políticas Públicas

Dos últimos sete anos pra cá alguns projetos voltados para a Convivência com o Semiárido começaram a chegar na comunidade de Caiçara. O Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada – Irpaa foi uma das organizações que executou projetos de Assessoria Técnica e Extensão Rural e de construção de tecnologias, a exemplo do P1+2 (Programa Uma Terra e Duas Águas), da Articulação do Semiárido brasileiro – ASA.

Por meio do P1+2, a família de D. Maria e S. Dionízio foi contemplada com uma cisterna de enxurrada e uma forrageira no caráter produtivo. Ansiosa pela chegada da chuva para encher a cisterna, D. Maria já preparou os canteiros e não se conteve: já iniciou o plantio de uma variedade de plantas como hortaliças, banana, abacate, tangerina, além de forrageiras como leucena, pornúncia, mandacaru. Enquanto a chuva não chega, a agricultora vai dando um jeitinho de molhar de vez em quando as ,udas utilizando outas fontes de água que a família possui. S. Dionízio fala animado também da chegada da forrageira, o que tem facilitado a produção de ração para os animais da família. “Foi bom demais esse Programa, não tenho o que reclamar”, opina D. Maria.

A família mantém uma média de 15 hectares de Caatinga preservada, prezando pela garantia de espécies de plantas e animais nativos da região e assim reafirmando a consciência sócioambiental de quem sabe o que é na prática a Convivência com o Semiárido. 

Texto e foto: Comunicação Irpaa


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