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Tecnologias da resistência

Tecnologias da resistência

 As tecnologias sociais que possibilitam a convivência com o Semiárido germinam democracia e promovem participação social e acesso à direitos


As cisternas, os bancos de sementes e tantas outras invenções dos agricultores e agricultoras experimentadores/as são reconhecidas tecnologias sociais difundidas Semiárido afora e se constituem em referência para o mundo. Num movimento de integração de múltiplos atores e políticas para o enfrentamento de uma força neoliberal que se expande em todo o mundo, a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) tem sido convidada a apresentar sua experiência em diversos espaços do Brasil e do exterior.

Somente neste ano, a proposta de convivência com o Semiárido desenvolvida pela ASA foram apresentadas na Itália, China e Senegal, como estratégia viável voltada à democratização da água, combate à pobreza e de promoção da justiça social. No mês passado, as ações de convivência com o Semiárido também foram destaque no evento internacional organizado pela FioCruz: Consulta Internacional sobre CT&I na implementação da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e seus ODS relacionados com a Saúde e de outro evento promovido pela Fundação Banco do Brasil (FBB), o Fórum Internacional de Tecnologia Social.

Segundo o coordenador da ASA pelo estado da Bahia, Naidison Baptista, que representou a rede nestes dois eventos, “temos sido convidados porque se reconhece o significado daquilo que fizemos, do que podemos fazer e do tanto que podemos contribuir. Quando se busca a ASA não se busca a tecnologia. Se busca uma intervenção política de uma organização social que foi capaz de mudar os rumos do Semiárido nesses 18 anos”.

Para ele, a ASA tem que tomar para si esse papel. “Somos capazes de construir um programa que inspirou uma politica pública para acesso à água, outra para produção de alimentos, nos inserimos nas escolas e contribuímos a mudar o rumo da perspectiva da educação no meio rural, implementamos mil bancos de sementes crioulas que garantem sementes adequadas e tiram os agricultores e agricultoras das mãos das empresas transnacionais. Temos dado uma contribuição imensa ao desenvolvimento. E somos capazes de muito mais e é, com base nisso, que os olhos se voltam com esperança para ASA”.

Recentemente a ASA formalizou uma parceria com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) que possibilitará a sistematização dos seus programas e do modelo de gestão, além da realização de intercâmbios entre gestores e agricultores de países do Corredor Seco (Guatemala, Honduras e El Salvador).

Esse movimento de valorização das tecnologias sociais também está relacionado à Agenda 2030 estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) através dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Criado em 2015, o acordo contempla 17 objetivos e 169 metas, colocando na pauta mundial temas como erradicação da pobreza, segurança alimentar e agricultura, saúde, educação, igualdade de gênero e redução das desigualdades, para serem trabalhados nos próximos 15 anos. Essa Agenda 2030 tem provocado uma série de debates entre agentes públicos, sociedade civil, povos e comunidades tradicionais, organismos das Nações Unidas, etc.

Segundo o diretor do Centro Mundial para o Desenvolvimento Sustentável do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Rômulo Paes, a sociedade civil brasileira tem se envolvido bastante neste debate. “A apropriação por parte da sociedade civil com a Agenda é contínua e agora temos novos parceiros para contribuir com a [sua] implementação e com uma observação crítica. A chegada da Fiocruz, por exemplo, é muito importante porque é uma instituição grande, com muito conhecimento acumulado e vem se somar a outras que estão bastante consolidadas, como a Fundação Banco do Brasil (FBB), Sebrae e as redes de ONG que participam produzindo tecnologia social e portanto, dessa forma, vêm contribuindo com o desenvolvimento sustentável”.

Celso Furtado já dizia isso - Em 1983, o economista Celso Furtado, em entrevista ao repórter Armando Figueiredo, no programa Vox Populi, da TV Cultura, já destacava que o desenvolvimento do Semiárido precisaria se fundamentar nas pequenas tecnologias. “É preciso procurar uma solução barata, que está na pequena irrigação. Está ligada também à pequena propriedade agrícola. (...) A pequena irrigação são técnicas simples, seja de retenção de água, seja de utilização de água subterrânea, mas todas elas baseadas de pequenos investimentos e decorrem, portanto de saber proteger a água”, afirmava ele.

Ele reconhecia a necessidade de outros caminhos, mas tinha clareza de que eles não representavam a saída para a pobreza do povo nordestino, como tantos justificavam. “Eu não excluo a hipótese de perímetros maiores de irrigação (...), mas não esqueçamos que uma população pobre como a do Nordeste não pode pagar alimentos criados por uma agricultura cara. Quando se pensa numa agricultura como a soja, isso é uma agricultura muito cara. Muito rica. A soja é tão capitalizada quanto uma indústria muito avançada”.

Cerca de uma década antes, na Inglaterra, surgiu um movimento chamado Small is Beautiful, mostrando que as pequenas tecnologias podiam ser mais eficientes em termos energéticos e de meio ambiente e podem trazer solução e renda para a população. Segundo Harold Schistek, agrônomo e fundador do Irpaa, uma das organizações precursora da convivência com o Semiárido “esse caminho é o que hoje chamamos de tecnologia sociais, embora eu não seja muito feliz com esse nome (...). No sentido de Celso Furtado, são essas tecnologias sociais as verdadeiras tecnologias”.

Para Naidison, “a tecnologia social não é meta, não é uma coisinha. Às vezes a gente olha a tecnologia social como coisinhas pequenas e baratas para tapear os pobres, mantendo-os na subalternidade. Então, tecnologia social não é coisinha barata, não é coisinha simples, não é coisinha de tapeação... a tecnologia tem que criar oportunidades para as pessoas saírem da situação de subalternidade. E é essa perspectiva que permeia a ação da ASA”.

É esse principio que faz da cisterna de placas difundida pelo Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) uma tecnologia tão popular. Além de descentralizar a oferta de água potável, a cisterna garantiu autonomia e independência ao povo do Semiárido à medida que eles e elas não dependiam exclusivamente dos carros-pipa, tampouco dos favores políticos. “Onde nós encontramos a cisterna? Na área rural. Esse não foi um conhecimento vindo do laboratório, não foi um conhecimento que nós da ASA inventamos. Nós buscamos nas comunidades rurais. Elas tinham e têm essa experiência e pertencia ao mundo da resistência delas para continuarem vivas. É um povo tão teimoso e resistente que há 500 anos querem acabar com a gente e a gente tá vivo ainda. Hoje, também querem acabar com a gente. Mas a gente está resistindo e a gente vai continuar vivo!”, afirma Baptista.

As tecnologias sociais também são capazes de influenciar todo o contexto associado a uma determinada realidade. Um exemplo disso é a redução da mortalidade infantil no Semiárido nos últimos anos e a mudança na vida das mulheres. “São 1 milhão e 250 mil mulheres que deixaram de carregar lata d´água na cabeça. Isso é muito significativo e importante. Tem muita mulher que diz “eu não era mulher, companheira, mãe, eu não era nada, eu era um farrapo”. Hoje, muitas delas estão estudando e algumas delas formadas. É a libertação do tempo das pessoas. Os grupos sociais saem da exclusão. As pessoas que estavam marginalizadas nesta perspectiva, começam a satisfazer suas necessidades e ter acesso a direitos”, comenta ele.

É por esta razão que no Semiárido as tecnologias sociais também são conhecidas como tecnologias da resistência, pois elas são capazes de resgatar a cidadania das pessoas. “Com elas, as comunidades resistem, mesmo que o governo queira matá-las, elas dizem ‘estamos aqui e vamos continuar’. Elas são germinadoras de democracia, espaço de participação, acesso à direitos. E elas são fáceis, de acesso e de governança simples, não são complicadas para gerir. E, por fim, elas devem ter capacidade de sair de si e de projetar-se para que se transformem em políticas. Porque uma simples tecnologias social, isolada, solta no espaço, não transformará a sociedade que a gente quer que transforme. A ASA apostou em jogar a tecnologia pra se transformar em política e isso foi fundamental. Nós queremos uma tecnologia simples, de domínio da população, possam galgar o patamar de se transformar em política pública”, pontua Naidison com entusiasmo no evento da Fiocruz.

Texto: Fernanda Cruz - Asacom / Foto: Roberta Guimarães 


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