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23.06.2011
Fogueiras juninas: tradição que gera impactos ambientais exige novas formas de uso da lenha
Em muitas regiões do Nordeste diversas famílias mantém a tradição de acender fogueiras em alguns dias do mês de junho. Com forte relação com a religião católica, este costume se reproduz a cada ano, em especial nos dias 23 e 24, onde se homenageia São João Batista, primo de Jesus.
Durante muito tempo se valorizou o uso de algumas árvores específicas para a fogueira junina, a exemplo da umburana, angico, baraúna, destacando como uma vantagem do uso destas a pouca liberação de fumaça. Contudo, o uso indiscriminado da vegetação para fazer a fogueira de São João é extremamente preocupante, uma vez que a extração e queima da madeira colabora para a degradação ambiental.
No período junino, portanto, constata-se o aumento da retirada de madeira nativa, mas órgãos como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis - IBAMA e o Ministério Público tem atuado no sentido de minimizar o comércio de madeira originada de cortes ilegais. Os comerciantes devem apresentar licença emitida pelo Ibama e se forem observadas irregularidades será aplicada multa e a madeira apreendida. Para as fogueiras recomenda-se a utilização de madeira originada de podas de árvores frutíferas, lenha de algaroba ou de árvores nativas que tenham sido retiradas com autorização do Ibama.
Recaatingamento: uma ação que garante a perpetuação
Para combater a degradação e conservar espécies nativas a fim de ter sempre madeira disponível para exploração legal, uma forma recomendada é o cultivo de espécies nativas ou exóticas adaptadas ao clima. Neste sentido, o Irpaa, há pouco mais de um ano vem desenvolvendo o Projeto Recaatingamento. As ações do projeto garantem a produção de mudas em viveiros em sete comunidades rurais do Território Sertão do São Francisco, na Bahia. As atividades tem envolvido as/os moradores das comunidades, as escolas e outras entidades parceiras que tem participado ativamente dos cursos, oficinas e mutirões para plantio das mudas nas áreas de fundo de pasto disponibilizadas pelas famílias das comunidades recaatingueiras.
Técnicos do Irpaa responsáveis pelo projeto já apontam alguns resultados importantes, como a consciência ecológica das comunidades. O manejo da caatinga, a importância de preservar, as medidas de compensação, recuperação dos solos e da vegetação, entre outras ações já fazem parte da realidade das famílias destas comunidades. Para a técnica Maria de Lourdes, as famílias hoje certamente já tem consciência de que a lenha para as fogueiras de São João será oriunda de madeira morta ou de galhos de algaroba, pois “derrubar árvore é uma ação que não faz mais parte do cotidiano delas”, afirmou.
Dados da devastação da caatinga
No semiárido, a caatinga sofre diretamente as consequências desta ação, principalmente com a retirada de madeira para produção de carvão e para alimentar fornos das padarias, caldeiras das indústrias, além da prática das queimadas em muitas áreas. O Programa de Monitoramento do Desmatamento nos Biomas Brasileiros por satélite, do Ministério do Meio Ambiente, mapeou a situação atual do desmatamento na Caatinga, destacando que entre 2002 e 2008, a cobertura vegetal foi suprimida em 16.576 km². Segundo a pesquisa, atualizada em 2010, o percentual de áreas desmatadas em 2002 era de 44,3% e subiu para 46,5% em 2008.
Esta situação viabiliza a desertificação, uma vez que os solos perdem nutrientes e podem sofrer processos de erosão ou mesmo infertilidade. Pesquisas apontam que a desertificação é o mais grave problema ambiental da região Nordeste, chegando a atingir uma área de mais de 900.000 km², o que faz com que não exista no país outro problema ambiental que atinja tal dimensão geográfica e afete direta ou indiretamente tamanha quantidade de pessoas, chegando a uma média de 15 milhões de brasileiros.
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